Em visita a Califórnia, Fabio Gouveia reencontra Neco Padaratz, Taylor Knox e legends de San Diego.

Em maio passado, matei a saudade de estar na Califórnia. Havia tempo que não pisava naquelas bandas. Creio que desde 2007 ou 2008, quando estava prestes a parar de competir. Nossa… nove, dez anos! Califórnia é muito astral, respira-se surfe por todos os lados em que passei. Matei a saudade também de velhos amigos, shapers e ídolos.

O propósito de estar lá foi para gravar para nosso programa no Canal OFF, ainda com data indefinida para estreia. Quando digo nosso programa é porque estou aliado à produtora Surf e Cult, de Luciano Burin, autor dos excelentes documentários “Pegadas Salgadas” e “A Pedra e o Farol”.

A equipe de filmagens foi composta por Antônio Zanella, nosso principal videomaker, e Pietro França, que, morando atualmente em Trestles e também um excelente surfista, facilitou nosso contato com o grande amigo e ídolo Percy “Neco” Padaratz. Aliás, nunca tive tanta emoção por ali desde a final que fiz com Neco em 99 durante o CT de Huntington Beach. E foi pra lá que nós fomos contar os “causos” e reviver tudo aquilo que balançou as estruturas em uma época antecedente à geração Brazilian Storm.

Depois de parar de competir e morar um tempo na Praia Brava de Itajaí, Neco mudou-se pra Califa com sua esposa Ana e seu filho Zion. Por lá, vem dando aulas de surfe e treinando uma molecada que almeja o surfe profissional no futuro. A turma tem jeito e essa parceria vai dar o que falar.

 

 

 

Neco é admirado e respeitado na América. Seu estilo despojado e elétrico cativa os gringos. Em nossa session em Trestles, e principalmente em Huntington, observamos isso. Nunca vi tanta energia, o bicho tá do mesmo jeito. Remava na da frente e quebrava a onda até a beira com suas rasgadas e laybacks costumeiros. Mau voltava para o fundo e já descolava uma esquerda com pancadas rumo ao píer. Isso em meio a dicas emitidas aos seus pupilos, e quando voltava, batia altos papos com surfistas locais que relembraram dessa nossa final e estavam entusiasmados por estarmos surfando ali.

Pra alinhar a session, havíamos convidado o hot surfer pernambucano Gabriel Faria, que passa temporada em Laguna Beach. O famoso “boy magia”, para os íntimos, também puxava os limites. Califórnia estava fria, com ondas pequenas. Se bem que naquela semana até demos sorte, pois um swell de meio a 1 metro esteve presente.

Dois dias antes de nossa estada com Neco, estivemos com o mestre dos “carves” Taylor Knox. E foi ele que transmitiu que aquela estava sendo uma temporada muito ruim de ondas. Nunca tive muita amizade com surfistas estrangeiros. Em parte, pelo meu encabulamento, que era elevado devido à barreira da língua. Mas, depois de tantos anos e, claro, com um “tuíí tuare” melhor, os papos fluíram e foi tudo muito agradável.

Conheci Knox ao fim dos anos 80, após sua passagem pelos intercâmbios Brasil x Estados Unidos que rolavam em Floripa. Tínhamos amigos em comum, como Décio Couto, ex-juiz da ASP, hoje WSL. Ambos apreciadores de café. Taylor fez questão de nos levar ao Stead State Rosting, famosa cafeteria em sua cidade Carlsbad, depois de uma fria e mexida surf session matinal. Foi o bicho! Naquela tarde, fomos recepcionados por ele e sua família em sua casa e o bate-papo preparado por nosso produtor Burin rendeu longa conversa.

A checagem sobre as mais variadas pranchas em sua garagem foi demais. O cara adora guardar pranchas e coleciona vários modelos. Mas em mente agora só vem a twin fin Mark Richards. Com ela, Taylor participou do evento especial nas Maldivas, o Champions Trophy. Outra prancha que lembro ter visto e, por falta de ondas na temporada Taylor relatara que estava usando muito, era um híbrida twin fin shapeada pelo legend Skip Frye.

E seguindo suas dicas depois do papo de pranchas retrôs, etc. e tal, fomos surfar em Cardif By The Sea, e por pura sorte, quem encontramos? O legend Skip. Senhor prestes a completar 77 anos, foi uma satisfação enorme tê-lo conhecido e visto surfar nessa idade. Pura inspiração que já vinha de relatos que escutava de ninguém menos que Brad Gerlach. Brad, depois que parou o Tour, nos anos 90, fez muitos testes com variados tipos de equipamentos e o Skyp era sempre a maior citação.

Estar na área de San Diego naquele momento parecia um sonho. Nunca havia ido ali com minha visão atual, visão essa mais voltada para conhecimento e apreciação de pranchas de surf e toda a história que saia dali. Paraíso do old schools, fishes, longs, ripster style e afins.

Um momento do êxtase na área de San Diego foi estar na Bird Shed Surf House. Bird é um cara sensacional e apaixonado por prancha desde jovem. Tem seu museu / loja em uma espécie de angár. Sua ideologia tem muito a ver com nosso projeto, que é se divertir, não importando o estilo da prancha. Mas claro, partimos da premissa de que não existe onda ruim, e sim o material errado.

O papo com Bird foi descontraído e ainda dei um rolé em seu admirável Plymouth Suburban dos anos 50. O cara gosta de absorver e passar as experiências com as pranchas e sua coletânea cresce naturalmente, sempre com um significado. Ali você pode pegar qualquer prancha pra fazer o surfe do dia. Pedimos uma dica e acabamos levando um longboard clássico Hansen de 69, ano de meu nascimento. Êita! Fabricada em Cardif, era por lá que iríamos também encontrar mais um ícone do surf mundial, Rob Machado.
Obs: nossa visita à Califórnia continua no próximo Espêice Fia.